diário de outubro.2025
(o mês que convidei Virgínia Woolf para dar uma volta comigo)
Escrevo essa primeira linha de uma cadeira desconfortável num aeroporto qualquer. Aliás, me encanto com aeroportos. Não importa qual, não importa quando, não importa onde, não importa em que contexto. Sinto que eles são sempre esse lugar qualquer, onde o tempo passa diferente.
Conectando o mundo,
desconectados do mundo.
Ninguém está ali, mesmo estando ali, mesmo querendo estar ali. Todo mundo está indo pra algum lugar. Todo mundo está vindo de algum lugar. Não o mesmo lugar, algum lugar. Ninguém fica. Só se passa. É sempre gerúndio nos aeroportos.
Tudo me parece transitório. Me sinto sempre também de passagem, com a minha passagem em mãos. Quase sempre em um movimento geográfico, apenas. Mas vez ou outra ele toma outra proporção - e é sobre um deles que quero dividir aqui.
Entrei em uma dessas lojas de conveniência com uma estante pra livros, sem nenhuma intenção de comprar. Só pra olhar - é assim que dizem, né? Um livro grande, na prateleira mais baixa, me chamou atenção. Agachei, abri em uma página aleatória e me pus a ler.
Era uma carta de amor, uma carta linda de amor. De amor e de entrega. De renúncia. Uma carta aparentemente lúcida e consciente mostrando que uma doença, não desejada e não dominada, impedia um amor bonito de seguir.
Vou tomar a liberdade de transcrever a carta aqui.
Meu querido,
Tenho certeza de que vou enlouquecer de novo. Não podemos passar por mais uma daquelas crises terríveis. E, dessa vez, não vou sarar. Começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso estou fazendo o que me parece a melhor coisa. Você me deu a maior felicidade possível. Você foi, sob todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. Acho que não existiam duas pessoas mais felizes, antes de aparecer essa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando sua vida, que, sem mim, você poderia trabalhar. E eu sei que vai. Veja que nem consigo escrever direito. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você tem sido extremamente paciente comigo e incrivelmente bom para mim. Quero dizer que—todo mundo sabe disso. Se existisse alguém capaz de me salvar, seria você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar estragando sua vida.
Não creio que tenham existido duas pessoas mais felizes do que nós.V.
Terminei de ler e descobri no rodapé da página que esse V. era de Virgínia Woolf. E que a tal carta de amor havia sido escrita ao marido, em uma manhã de março de 1941, horas antes dela própria encher os bolsos de pedras e encerrar sua vida em um rio próximo à casa que morava.
Aquilo me pegou. Me acessou.
Li outras três vezes a carta, naquele mesmo minuto.
E hoje, dois anos depois, ainda não parei de pensar nessa mulher.
Ela segue me movimentando. Me sinto sempre de bilhete na mão pra um destino escolhido por ela, quando leio seus textos, seus ensaios, seus diários. Sinto que ela me vê. Sinto que ela conversa comigo. Sinto que ela me alcança, mesmo quando eu corro mais rápido. Eu é que não consigo a alcançar sempre, me doem as pernas, me doem as costas, o corpo, a mente. Aliás, foi pela morte que a conheci, mas foi sua vida que me conquistou, foi pela sua mente que eu fiquei completamente obcecada.
Comprei o primeiro livro.
Devorei.
Fui devorada, melhor dizendo.
O que se espera que alguém faça assim que terminar de ler ‘Um teto todo seu’?
Eu não sei, eu não soube muito o que fazer. Então não parei. Eu mergulhei.
Poderia ficar aqui horas contando as tantas vezes que perdi o fôlego lendo Virgínia, relembrando os trechos dos seus ensaios e diários que não saem da minha cabeça há meses.
Começando essa frase, agora, sinto que nem sei como ela terminará. Não sei dizer o motivo desse texto ter começado, também não sei pra onde ele vai. Talvez isso retrate com ainda mais intensidade o movimento que ela gera em mim. Coloco um pé e, de repente, ela me levou.
Receio que esse texto fique tão confuso pra você, que ainda não desistiu de ler, quanto é pra mim.
Talvez desejar seja o verbo correto.
É isso.
Desejo que fique tão confuso pra você quanto é pra mim.
01.out.25
Seria um tanto quanto cruel da minha parte listar os medos e receios que sinto agora, algumas horas antes de puxar o primeiro encontro sobre Virgínia Woolf, mulheres e dinheiro. Uma lista grande demais para lidar aos 45 do segundo tempo.
Todos eles, porém, rodeiam um ponto central: o medo de que a lente individual seja interpretada como miopia e uma tentativa de culpabilização e individualização de uma questão que sabemos que é estrutural.
O plano é fazer os disclaimers e as ponderações todas no início para minimizar ao máximo esse risco, mas sem entrar em um tom de justificativa, de pedido de permissão. Sinto que vai dar bom.
Tenho uma infinidade de palpites, hipóteses e percepções mais soltas e menos expressivas, mas esse ponto me parece sólido o suficiente: olhar para a autonomia financeira feminina a partir das experiências individuais não significa abrir mão da análise coletiva, mas, muitas vezes, é onde ela começa a se revelar com mais clareza. As histórias individuais encarnam as estruturas sociais: elas são a materialização cotidiana do que o sistema impõe ou permite.
Minha métrica de sucesso pra hoje é um tanto quanto egoísta: quero provocar exatamente da forma (e no limite) que eu gostaria de me sentir provocada se eu tivesse sentada do outro lado.
E isso, de algum jeito, exalta o contorno borrado entre o individual e o coletivo que tanto tenho pensado. Já vou, tá na minha hora, tô animada demais.
-
00h30
não vou nem tentar traduzir o que sinto agora
estou fugindo,
por algumas horas pelo menos,
dos comentários que retratam a percepção das outras pessoas que estavam na roda,
quero apreciar com carinho o que só acontece dentro de mim
bom demais viver mais uma primeira vez
queria guardar em um potinho



02.out.25
chegando na análise, às 8h da manhã,
sem ter processado direito como ontem me pegou
sinto que é como se fosse uma faca com duas pontas
quanto mais eu cutuco, mais sou cutucada
quanto mais me cutucam, mais me sinto confortável para cutucar
não sei bem como será essa sessão (algum dia eu sei, aliás?)
minha mente não consegue acompanhar as sensações todas
tô bem mexida
feliz
é isso que acontece quando a gente se coloca inteira em um palquinho
é isso que acontece quando a gente se sente inteira em um palquinho
03.out.25
minha analista perguntou se eu estava sentindo pressão ou um peso de responsabilidade a partir dos comentários e das trocas que aconteceram
não estou
não acho que elas estão falando sobre mim
08.out.25
não dá pra fugir de nós mesmos
não dá pra fugir de nós mesmos
não dá pra fugir de nós mesmos
não dá pra fugir de nós mesmos
não dá pra fugir de nós mesmos
não dá pra fugir de nós mesmos
não dá pra fugir de nós mesmos
13.out.25
Muito se fala da morte, da escritora, da doença mental, da mulher Virgínia Woolf.
Muito se fala da inspiração que ela foi, é e seguirá sendo para tantas gerações, mas é um outro lado, tão bonito quanto, que me arranca um sorriso no canto da boca:
sua acidez
sua impaciência
sua irritação
sua sombra
Não é como se fôssemos perfeitos-sem-defeitos e ela, toda perturbada, tivesse a coragem de mostrar seu lado menos nobre; meu palpite é que ela tinha muita convicção que uma parte grande de todo ser humano é meio podre mesmo; e sabendo disso, tinha coragem de não mentir pra si.
16.out.25
Logo mais gravo com a Helena Galante - falaremos sobre dinheiro e emoções. Já acompanho o trabalho dela, de longe, há um tempo. Já ouvi alguns episódios, já li alguns textos e vi recentemente que ela lutava pela vida, enfrentando um câncer de mama.
Há 5 anos o outubro rosa tem outro significado pra mim.
Revejo as fotos, tenho vontade de selecionar algumas, escrever alguma homenagem, usar a inspiração dela pra incentivar outras pessoas a fazerem seus exames, mas aí sento e não sai nada.
Tento então buscar em mim o sofrimento de não tê-la mais aqui. Não encontro também, ele me escapa. Isso me incomoda. Me parece errado não sofrer de saudade. Será que eu sou meio ruim mesmo?
Não sei dar nome para o que sinto. Orgulho, talvez? Um orgulho emocionado, sensível, recheado de tanta coisa. Foi bonito demais ver você viver a vida nos anos que tive a alegria de ser companhia. Ainda que com anos limitados, ainda que com um fim duro.
Talvez você soubesse,
talvez por isso tanta força,
talvez por isso tanta pressa,
talvez por isso tanta briga.
Me lembro de um dia no clube você me dizendo ”as pessoas me acham chata por comprar as brigas pelas coisas que quero e pelas coisas que não acho que tenho que aceitar, mas eu não tô nem aí”.
As pessoas não entendiam, Flávia. Talvez eu também não.
Obrigada por tanto.



19.out.25
Quanto uma mulher deveria ganhar?
O suficiente para que sua voz não perca força.
Quero elaborar isso, voltarei aqui.
23.out.25
Acordei reverberando o encontro de ontem...
Sinto que eu poderia levar para tantos lugares diferentes a sequência dessa entrada de diário. Na dúvida, na confusão, nada sai do lugar, nenhum parece suficiente.
Ainda quero falar sobre como foi ter tanta gente querida; sobre ter tanta gente que me conhece super bem (e que não usufruia do meu trabalho de forma direta há muito tempo) me ouvindo; sobre me perceber nesse palquinho; sobre sentir/ter (ou não) a responsabilidade do que tenho falado por aí... abri as fotos e ela essa terceira me pegou.



No mínimo, simbólica.
Uma quebra quase perfeita do antes e depois.
Uma lembrança de outra vida, como engenheira civil, há mais de dez anos.
Outra vida, outra Vívian.
Como é que aquela pessoa virou essa aqui?
Ainda bem que aquela pessoa virou essa aqui!
24.out.25
Peguei meu bloquinho de anotações da Flip (outubro.2024) pra buscar o nome de uma empresa que queria indicar. Me deparei com isso:
Foi em 11.out.24, há pouco mais de um ano.
Quantas vezes a gente precisa ter a mesma ideia para que ela encontre força pra sair pro mundo? O que faz ela se sentir pronta? Ela, a ideia, esse terceiro elemento, que não faz parte de mim, que opera por conta própria, através de mim, até que eu a incorpore.
Uma vez incorporada, eu dou a ela a chance de se materializar.
Ou talvez ela me dê a chance de me projetar no mundo através dela.
31.out.25



Os dias pós roda têm sido curiosos.
Hoje tudo se repete.
O corpo acorda meio esquisito, querendo muito, sem muita força.
A mente acorda confusa, pensando muito, sem ligar as ideias direito.
Me sinto agitada e quieta. Feliz e introspectiva. Confiante e pressionada.
Não consigo elaborar direito,
mas meu corpo parece conseguir.
Deixo ele.
Que mês, que mês.
Ainda que bem que em novembro tem mais.




me solta um trem desses e o próximo só vem em novembro?!?!
Adoreiiiii!!!!